RESENHA: HEX, de Thomas Olde Heuvelt

junho 22, 2018



Autor: Thomas Olse Heuvelt

Ano de Lançamento: 2018
Editora: Darkside
Páginas: 368
Sinopse: Toda cidade pequena tem segredos. Mas nenhuma delas é como Black Spring, o pacato vilarejo que esconde uma bruxa de verdade do resto do mundo. Os moradores sabem que não se deve mexer com ela. Assim como aconteceu com as bruxas de Salem, Katherine Van Wyler foi condenada à fogueira. Mas a feiticeira sobreviveu e continua rondando a cidade, mais de trezentos anos depois. Com costuras em seus olhos e correntes nos braços, Katherine aparece nos lugares mais improváveis quando bem entende, sussurrando a morte para quem chega perto o suficiente para ouvir. Assim como a Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe, ela enfeitiçou a alma da cidade de forma que escapar não é uma opção: quem se afasta demais tem a mente invadida por pensamentos suicidas, e muitos não retornam para contar a história. Os habitantes de Black Spring controlam os passos da bruxa 24 horas por dia através de um aplicativo de celular desenvolvido especialmente para garantir que a bruxa não seja revelada para os Forasteiros. A vigilância constante aumenta o clima de paranoia na cidade, enquanto um grupo de adolescentes desafia as regras e resolve provocar a bruxa para ver se ela é tão perigosa quanto dizem." (Amazon)



Resenha:

“Isto é o quanto basta para as pessoas mergulharem na insanidade: uma noite a sós consigo mesmas e o que mais temem.”

A frase acima exemplifica muito o que mais me intriga em histórias de terror: não é o sobrenatural que assusta, e sim a forma como as pessoas reagem a ele. Histórias de terror nos fazem enfrentar alguns medos e angústias que, felizmente, não enfrentamos no nosso dia-a-dia. A partir do medo, a máscara cotidiana cai e nosso lado obscuro se liberta.

A partir deste ponto, começamos nossa conversa sobre “HEX”, romance do holandês Thomas Olde Heuvelt. Desde o inicio do livro, somos apresentados a bruxa que assombra Black Spring e sua relação com a população local. Toda a cidade já está acostumada a aparição, que já virou algo corriqueiro no dia-a-dia dos moradores. Ela possui toda uma rotina, cronometrada, registrada e conhecida por todos, e pode aparecer em qualquer lugar da cidade a qualquer momento: pode ser no estacionamento da escola, no porão de uma casa ou na sala de outra. Porém, apesar de estar ali, a bruxa está controlada desde que teve sua boca e seus olhos costurados no passado e seus braços presos por pesadas correntes. Desde então, deixou de ser um risco iminente e passou a ser a penas uma "situação diferente" na pacata cidade. Além de, claro, ter lançado uma maldição em toda a cidade. Ainda assim, sua presença fez a cidade criar toda uma legislação sobre como reagir (ou não) a sua presença. Como todas as normas, punições também são criadas para quem não seguir as regras que a cidade dita. Para melhor monitorizar a  bruxa, a cidade possui toda uma equipe (a HEX) que cuida não somente da população, mas também cuida para que a existência deste ser sobrenatural não saia para fora de seus limites. Além das câmeras de segurança por toda a cidade, foi criado um aplicativo de celular, o HEXapp, para que a população comunique as autoridades onde a bruxa se encontra, função que também serve para os moradores saberem se dua localização ou sobre qualquer informação sobre a mesma. Logo aqui já temos algo contemporâneo e diferente das histórias de terror. Fora que é genial o atual (tecnologia) e o passado (uma bruxa do passado). ISSO É MUITO BLACK MIRROR!

Falando um pouco sobre a maldição, ela inclui uma restrição a todos os moradores da cidade, sendo que, uma vez que criam suas raízes ali, nunca mais poderão sair. Podem sair da cidade para trabalhar, visitar parentes ou passear, desde que não demorem muitos dias, senão a influência da bruxa faz com que seus dias fiquem depressivos e infelizes, a ponto de quererem acabar com esse sofrimento. Logo, novos moradores em potencial são totalmente desestimulados a se mudarem para a cidade. Os moradores que ali estão, não podem contar a ninguém de fora sobre a bruxa (outra lei municipal), fazendo com que tudo que acontece em Black Spring, fique em Black Spring.

Os problemas começam quando os os adolescentes da cidade começam a realmente se dar conta de suas condições e percebem que nunca poderão realmente serem livres, ter suas carreiras ou simplesmente ter a livre escolha de viver como bem entenderem. Logo, um grupo começa a indagar essa situação e a tentar fazer algo para que isso mude. Já dá pra imaginar que tudo vai dar muito errado, certo?

Retomando o que falei no início, muito além dos poderes da bruxa, o mais assustador da história é descobrir o que as pessoas são capazes. Chega um momento da narrativa que percebemos que o que está acontecendo não tem influência de nenhum poder sobrenatural mas, sim, é fruto da histeria e reflexo de autopreservação dos locais. Talvez nos preocupamos tanto com o desconhecido que não percebemos que devíamos nos atentar mais às pessoas que estão ao nosso lado todos os dias; ali, sim, pode residir o real terror.

Na escrita de Thomas, fica nítido a influência que o Mestre do Terror, Stephen King, teve em sua formação, seja nos detalhes, nas reviravoltas, ou na capacidade de não ter medo (nem piedade) na hora de contar uma história. Lendo HEX eu, fã declarado de Stephen King, sentia que estava lendo uma mistura de “Cemitério Maldito”, “Sob a Redoma” e “Salem” (ou "A Hora do Vampiro"). A escrita é lenta, detalhada, nos apresentando os núcleos da história que terão, cada um, um papel importante no desenrolar da história. Mesmo com todas essas referências, Thomas encontra sua própria voz e sua identidade, deixando sua marca como um dos melhores autores contemporâneos mais promissores no gênero.

Um fato interessante sobre esta edição, é que ela é a versão americana do livro. Em 2013, o livro foi lançado na Holanda, e a história se passava no país e os personagens tinham nomes regionais. Quando surgiu a oportunidade de lançar seu livro em outros países, o autor preferiu mudar a localidade para um lugar mais comum e com nomes de personagens mais fáceis de se entender, para criar uma familiaridade com um público maior. Aproveitou a deixa da tradução para alterar o final do livro. Inclusive, ele não divulga de jeito nenhum qual o final do livro na versão holandesa. Alguém aí sabe falar holandês e poderia contar para nós? 


P.s.: Thomas esteve no Brasil no mês de junho para um Booktour com a editora, e eu tive a oportunidade de conseguir meu autógrafo e trocar algumas palavras com o simpático autor. Visivelmente feliz com a repercussão do livro no Brasil (e com a edição maravilhosa que a Darkside produziu), ele perguntava para cada um sua opinião sobre o livro e qual sua parte favorita. De quebra, ainda me aconselhou a, caso a bruxa apareça no meu quarto durante a noite, não prestar muito atenção aos seus sussurros. Melhor pessoa!

Sessão de Autógrafos na Livraria Saraiva de São Paulo, dia 05/06/2018.


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