Precisamos falar sobre o filme "Hereditário" (sem spoilers)

junho 29, 2018


Nos últimos anos vemos cada vez mais produções de terror nos cinemas e nos streamings, mas muito se fala sobre a qualidade dos mesmos. Filmes de sustos fáceis, com roteiro ruim e atuações sofríveis são empurrados na cara dos espectadores que buscam algo diferente e não perdem as esperanças de filmes realmente assustadores. O que aumenta ainda mais a frustração quando nos deparamos com as péssimas produções.

Normalmente na divulgação destes filmes, as distribuidoras sempre tentam comparar a obra a alguma outra de sucesso e de qualidade comprovada (ou rentável), como, por exemplo, “O exorcista”.  O que ainda atrais alguns curiosos as salas de cinema, mas, novamente, causam decepção. Nessa pegada, chegou nos cinemas brasileiros este mês o tão comentado “Hereditário”. Filme que ganhou a comparação com “O exorcista” nas propagandas, mas dessa vez a comparação é real: esse filme tem tudo para chocar a audiência assim como o clássico assustou em sua época. Mas em comum mesmo eles só tem o fato de serem assustadores de verdade.

O filme começa com a morte da avó da família, que não tinha uma boa relação com sua filha Annie (a MARAVILHOSA Toni Collette, em uma atuação digna de Oscar), porém era muito próxima de sua neta Charlie (Milly Shapiro, também muito competente no papel), que praticamente foi criada pela avó. A partir desta morte, situações esquisitas começam a acontecer com a família e aos poucos ela começa a descer escada abaixo no quesito sanidade.


Importante ressaltar que “Hereditário” foi produzido pela A24, produtora que já possui muitas indicações ao Oscar, levanto em conta sua curta existências e que vem ganhando destaque com suas produções de terror de baixo orçamento e que são aclamadas pela crítica, porém não anima muito o público, usando como exemplo “A Bruxa” e “Ao cair da noite”, ambos filmes que decepcionaram o público em geral, apesar das críticas positivas. Nessa questão, eu retorno para a questão da publicidade: ambos os filmes foram vendidos como assustadores e comparados a obras totalmente diferentes do que eles realmente são. Logo, o que o público, acostumado com filmes vazios e de sustos fáceis (jump scaries) espera: sustos e muita trilha sonora alta. E assim vem a decepção. Mas vamos comentar sobre estes filmes em outra oportunidade. Porém a questão é: “Hereditário” seguiu a mesma fórmula que os filmes anteriores da produtora ou eles resolveram aderir a receita de bolo? 

Resposta: nenhum dos dois.



Este não é um filme de terror comum. E digo mais, é um dos melhores dos últimos anos. Ele trabalha totalmente com a quebra das expectativas. E quando você pensa que sacou o que ele está querendo dizer, ele vai lá e quebra essa sua ideia também. Sim, complicado, mas é exatamente isso que ele faz. O diretor e roteirista Ari Aster brinca o tempo todo com o expectador. Primeiro, ele te faz pensar que este não é um filme de terror de verdade, dando a entender que ele quer que você se ache inteligente e pense que descobriu o segredo do filme. Depois, ele vai lá e mostra que ele sabia que estava causando essa sensação no público, e, novamente, muda o rumo de tudo.

A história é muito bem construída e sem pressa, fazendo nos questionar, inclusive, se estamos vendo um filme de terror. A construção dos personagens acontece gradativamente, nos mostrando o perfil psicológico de cada um. A cada ato (o filme possui três visualmente distintos) mudamos nossa concepção sobre o que estamos vendo, até o derradeiro final. E ah... QUE FINAL! Recomendo ainda prestar muita atenção nos diálogos e simbologias do filme. TUDO neste filme fará sentido quando os créditos começarem.


Annie trabalha com maquetes e miniaturas, e, durante o filme, ela está fazendo exatamente uma versão pequena de sua casa. No decorrer do filme, a câmera de Ari nos dá a impressão de que não estamos na casa real, e sim na fabricada pela personagem. Tem momentos, inclusive, que ele une as duas com um jogo de câmeras muito bem executados. Não posso falar muitos detalhes como gostaria, porque parte da experiência deste filme está na surpresa. Me aprofundar mais estragaria esta sensação. Mas o que posso dizer é: esqueçam o trailer. Se puder, nem assista. O que te espera na sala e escura dos cinemas é algo totalmente diferente. E fantástico!

Confesso que a muito tempo eu não sentia uma sensação tão ruim como a que senti ao sair deste filme. Conseguiu ultrapassar o medo: causou incômodo, desconforto. E isso é cinema: é despertar sensações e experiências, quer gostemos delas ou não. No fim, só nos sobra saber lidar com elas.

E eu te pergunto: Após a morte de um ente, o que será que herdamos? Será que apenas bens materiais? Ou será que o mal também é hereditário?


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